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É o título da mais recente obra de Mário De Carvalho, e é uma obra maravilhosa que recomendo a quem se interesse pelas costuras dos livros. Novel escritor, é assim que ele se nos dirige.

Mário de Carvalho demite-se, à partida, de criar um compêndio de Teoria de Literatura, dissecando os livros como quem revira as tripas de um cadáver estendido, adivinhando-lhe as causas da sua condição; mas não menoriza de forma alguma a importância da maçuda disciplina, nem dos académicos que discorrem as suas teorias sobre elipses, analepses e subplots. Como nota prévia, avisa que não se trata de um livro académico. Já pude limpar o suor da testa. A teoria musical é fascinante, a teoria da literatura é um horror. Letras sem tretas, é o subtítulo deste livro.

Fala de literatura como quem ama, não cede a cartilhas de estilo e forma, mas respeitando o edifício que já se construiu. O Homem é um ser de convenções, aplauda-se a irreverência de as confrontar, mas conheçam-se os recursos, e esteja-se munido deles.

É um livro de esperança para quem quer pisar as angulosas pedras deste caminho, mas não deixa de alertar que as calosidades são inevitáveis. Aborda esta tremenda dificuldade que é a escrita com um inteligente e aguçado sentido de humor, no alto da sua maturidade de escritor que já percorreu uma longa estrada e conhece-lhe as curvas.

“Se o exercício da dúvida produz maus anúncios, pode, em contrapartida, gerar melhores escritores.”, remata num dos capítulos. Abundam os excertos de outros livros, e são várias as referências a vários escritores, destacam-se Eça, José Cardoso Pires e Tolstói, por quem o autor parece manifestar bastante admiração. Partilho-a.

Arrogo-me da ousadia de o recomendar, para leitores ou escritores.