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Sempre me disseram que a inveja a nós dirigida, inflige-nos algo de maligno, conspurca o nosso destino com subtilezas que nos indicam os caminhos ínvios em momentos de confusão. Nunca acreditei em tal coisa, mas a sabedoria popular é mais velha do que qualquer ciência.  José Sócrates é um homem que desperta muita inveja.

Portugal foi um país pobre durante muito tempo. Privado da democracia,  a aspiração à burguesia, estatuto e poder eram vedados ao homem comum, um privilégio de castas. Desejos recalcados que se manifestam no cinismo e desconfiança em relação ao poder actual. Talvez um espelho grotesco de um comportamento que seria semelhante em semelhantes circunstâncias, ousando mais do que na metáfora freudiana.

Sócrates é autoritário, discute num campo emocional, cujo resultado da discussão se mede na humilhação do adversário. Arrastou consigo uma tribo devota que insiste num espetáculo deprimente de fidelidade visceral que, cada vez mais, futeboliza a discussão política e arroga-se de possuir a verdade universal recorrendo a sofismas vários, revestindo-se de um paternalismo mal-educado. Sócrates é a esfinge moderna da auto-confiança, da cultura de progresso de cartilha, o culto do “quero e posso”. Juntando ao caldo uma certa dose de  chico-espertismo, obtém-se a receita para o ódio político mais apurado por uma figura que encarna uma personagem-tipo.

Neste circo mediático que marca a História moderna de Portugal, há um número particularmente interessante: os comentadores e as suas leituras. Aparte do penoso “enche-chouriços” de jornalistas plantados à porta de garagens,  donde saem velozes Renaults Clio perfurados por câmaras alcoviteiras, esses visionários vestem um esgar de consternação, com as devidas excepções,  e debitam os acéfalos lugares comuns. Mas há aqueles que vão um pouco mais longe e profetizam o apocalipse político, especulando sobre uma possível mobilização eleitoral por parte dos portugueses saloios que se deixarão seduzir por uma qualquer força populista, essa ameaça à democracia.

A escorrer naquelas calhas que ladeiam os passeias, corre aquele fenómeno, apelidado de perigoso devido às agendas pessoas e tribais de cada um, que são os políticos/comentadores. Não dá para disfarçar, Marques Mendes, não dá para disfarçar.

Com uma astúcia inusitada e renovado entusiasmo, Passos Coelho repete a ladainha de pré-campanha 2011, e  pela porta do cavalo do seu discurso remata com algo assim: “Sabemos hoje, que nós não somos todos iguais.” Para quem não comenta um tema que é, segundo o seu porta-voz, “do domínio da Justiça”, é uma ousadia de jotinha sénior do facebook.

Compadeço-me com o desespero daqueles que afirmam não haver implicações políticas que,  para a sua análise, é necessário como pré-requisito ter frequentado o recreio da  escola primária, ninguém suportará o resultado, seja ele qual for, são demasiados berlindes só para um dos lados. Outra lição que se aprende na primária, é que os animais ferozes são muito mais perigosos quando feridos.

Falta saber a reacção dos mercados, essas Donas Marias do Patrocínio que se benzem em temor antes de proferir o nome deste antro sulista.