Tags

, , , , , , , , ,

Jeroen Dijsselbloem e Yanis Varoufakis são os aide-de-camp em mais uma batalha entre a cultura “racionalizadora” da ética protestante dos países nórdicos, e os países do sul que sempre sucumbiram à burocracia científica privilegiando a vida farta do sol mediterrânico.

O ar triunfante de Varoufakis nesta imagem icónica pressupõe uma vitória sobre Dijsselbloem  que o cumprimenta sem convicção, é, pelo menos, uma afirmação forte. Presto-lhes a minha homenagem pela ausência de hipocrisia que sempre tempera estas cerimónias, eles detestam-se e é bom que isso fique claro. A ocultação da raiva tem consequências que Freud pode atestar.

É muito tentador simplificar esta questão, e ocupar um lugar livre nas trincheiras ideológicas onde sempre há espaço para mais um soldado. Se por um lado uns pensam que a situação grega e portuguesa se explica por culpas dos próprios, por outro se lançam morteiros em direcção a uma Europa incapaz de perceber e lidar com as diferenças identitárias que se reflectem na Economia, forçando os países a práticas e standards desadequados, numa terraplanagem cultural que acriticamente abraçamos como progresso.

A vitória do Syriza não traz consigo nenhuma novidade, é o cavalgar numa onda de descontentamento legítimo com a alienação que o Euro está a provocar. Mas, é certamente uma vitória provocadora e necessária para renovar o pensamento sobre as políticas seguidas. Prolifera-se uma anomia, um desencanto pelo sul da Europa que um acontecimento com contornos revolucionários pode debelar.

Muito se tem discutido sobre quem perdoou a dívida a quem e quando, e se foi um perdão ou a extensão de um agrilhoamento através da dívida por forma a eternizar o problema, a verdade é que a culpabilização dos alemães pelos problemas do Sul não tem mais utilidade do que titular panfletos e arrecadar alguns votos. Toda a gente tem de fazer uma introspecção séria por em prática a virtude da honestidade intelectual.

Os partidos à esquerda do PS regozijam-se com esta vitória, mas eu teria um pouco mais de vergonha e de recato, porque nenhum deles tem coragem para governar e sujar as mãos, confrontar-se e por em prática as ideias que defendem; ao contrário do Syriza que se vai confrontar com a inevitabilidade das negociações, pois assim é a democracia.