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As barragens Tua/Sabor são crimes ambientais. É a manifestação física da irracionalidade estratégica,  falta de respeito pelo mundo e desprezo pelos valores imateriais.

Em 2008, o mal-afamado governo de então aprovou o Plano Nacional de Eficiência Energética (PNAEE) [1], estabelecendo como meta uma redução de consumo de energia final em 10% até 2015. O plano abrange áreas tais como: transportes e mobilidade urbana, eficiência energética dos edifícios e electrodomésticos, fiscalidade, comportamentos, etc. Esta poupança evitaria a construção das barragens.

Poupança, é uma palavra que perde eleições; cheira à naftalina do conservadorismo, um entrave ao progresso que apenas se constrói conjugando o verbo investir. Perante a possibilidade de suspender o atentado, os partidos do costume (PS, PSD e CDS) atacam com o argumento da demagogia, sempre ávidos na defesa de processos tão transparentes como este.

Parta-se então para a demagogia: a energia produzida por estas barragens é ínfima, e nem sequer vale a pena o embaraço de fazer uma comparação custo económico e ambiental/benefício energético que representa. Trata-se de um negócio para a EDP e para as construtoras. Não vou enunciar exaustivamente os factos sobre esta barragem, a plataforma Salvar o Tua é clara sobre nessa enunciação e há vários documentários sobre o tema; são inúmeras as fontes e se a sua credibilidade pode ser questionada pela identificação com uma ideologia que sempre se apropria destas causas, tome-se a fraqueza da argumentação em favor da barragem, por parte do governo e EDP, como certificado de causa justa.

Este tema aparece revestido de uma camada de complexidade, que desanima o comum dos mortais, não versado nas obscuras ciências da Economia e dos recentes desenvolvimentos em tecnologias na energia, mas os cidadãos deverão ter uma voz que se faça ouvir, procurando-se informar o melhor possível.

Além do desastroso impacte ambiental, a barragem afoga o que resta da linha do Tua, que vem sendo desmantelada ao longo dos anos, numa estratégia deslocalização para o litoral através da eliminação der serviços (escolas, saúde, justiça, etc) sangrando as populações que não tem grande alternativa perante tal desânimo, uma self-fulfilling prophecy. Precisamente no sentido inverso ao do discurso dos políticos (Cavaco, Soares, etc) que nestas regiões sobem às carrinhas de tractor para evangelizar a populaça.

É um paradoxo insanável.

Não me ofendo por me apelidarem de conservador, de  interpretar o papel de Velho do Restelo, pois conservo e quero ver conservado o que para mim é o mais próximo de sagrado. Não me imponho,  mas tenho um medo, e uma certeza:  a “política verde” – porque as energia hídrica é considerada como renovável – tem a beneplácito de praticamente todos os espectros ideológicos e tornou-se no cavalo de Troia perfeito para perpetuar as práticas políticas de interesses particulares  que sempre tem a habilidade de se adaptar às conveniências.

ps: Como exemplo de ladainha dos lobos vestidos com a indumentária de cordeiros, dos bocas-cheias de  “país que anda para frente(…)aqueles que estão sempre contra tudo(…)o jovens querem ver aquela barragem construída(…)” protagonizado por um exímio interprete da manha que brevemente terá sucessão, serve este debate parlamentar.

Felizmente, o processo é reversível.

[1] Diário da República, 1.ª série — N.º 97 — 20 de Maio de 2008, Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética — Portugal Eficiência 2015, http://dre.pt/pdf1sdip/2008/05/09700/0282402865.PDF

[2] QUERCUS, O Programa Nacional de Barragens: desastre económico, social e ambiental, (Consultado em 21/07/2014)  http://quercus.pt/siteantigo/www.quercus.pt/xFiles/scContentDeployer_pt/docs/articleFile441.pdf

[3] INESC Porto, Recomendações para uma estratégia sustentável de eficiência energética e exploração de energias renováveis para Portugal, (Consultado em 21/07/2914)  http://www2.inescporto.pt/SEE_JAN2012.pdf/