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Ler Fernando Pessoa é um exercício de amnésia selectiva. É a delicada extracção memorial daquilo que foi dito na aulas de Português, a partir do momento em que essa fascinante disciplina foi conspurcada pela análise literária. Não quero melindrar as professoras de português, de quem gostei muito, mas a estratégia ideal para desmotivar miúdos de 14 anos, futuros leitores, é autopsiar cantigas medievais ou largá-los incautos nas entrelinhas sarcásticas e snobs do Eça.

E não bastava as pobres almas serem arrancadas das inocentes leituras dos Triângulo Jota e Hiper-Disney directamente para as ínvias interpretações de sabatina, quando são confrontadas com o drama em letras de um tal de Fernando António Nogueira Pessoa.

Hoje, numa entrevista do El País a António Lobo Antunes, apercebi-me de uma abordagem do autor de “Cus de Judas” à obra de Pessoa que, lamentavelmente, em desaproveito do turbilhão hormonal da plateia, ficou ausente da sala de aulas:

“O livro do não sei o quê [Livro do Desassossego] aborrece-me até à morte. A poesia do heterónimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Whitman; a de Ricardo Reis, de Virgílio. Pergunto-me se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor”.

Confesso que  nunca  relacionei a tragédia que é a vida amorosa de Pessoa com o conteúdo da obra porque a esperança do mundo reside, também, no génio ofuscar a tristeza. Mas vou cometer a ousadia de imaginar a resposta de Fernando Pessoa que, respondendo a uma solicitação despropositada da Comissão Administrativa do Museu-Biblioteca Conde de Castro Guimarães na sequência da sua mal sucedida candidatura a bibliotecário, acerca de uma hipotética influência de uma aventura amorosa na sua obra, rematou assim:

“Não costumo por à arte a canga da sexualidade”.