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A Clara Ferreira Alves é uma excelente cronista e uma pensadora independente. Na edição do Expresso deste fim-de-semana escreveu um extenso artigo sobre a sua experiência pessoal com a prática do comunismo em Portugal, e de imediato foi apedrejada pelos fariseus das redes sociais. As reacções à sua crónica são assustadoras do ponto de vista da prática democrática na sociedade portuguesa, não tardará a ser apelidada de fascista.

O seu testemunho é arrepiante, e se querem contra-argumentar será a desmentir relatos como o seguinte por onde podem começar:

“(…) Na Faculdade de Direito de Lisboa, os estudantes comunistas tinham o estranho hábito de decretar greves gerais sem consultarem todos os alunos nessa votação. Um aluno chegava à faculdade e diziam-lhe: hoje não entras, há greve. Há greve? Quem votou? Nós. Nós quem? Numa reunião secreta. Se foi secreta, como é que votámos? Nós votámos. Por causa desta discussão insana que despertava em mim instintos libertários e anarquistas, cheguei a furar uma ou duas greves com mais uns dementes como eu que não gostavam de ser paus-mandados. De um lado tínhamos os gorilas e do outro lado tínhamos as greves obrigatórias dos comunistas, que se arrogavam o monopólio da contestação.”

“Sobrando em Direito professores comunistas que não abdicavam da colectivização dos bens e dos meios de produção, fomos obrigados a estudar marxismo coagidos pela frase: quem vier para as minhas provas escritas e orais defender a propriedade privada pode contar com um chumbo.”

Eu, se fosse confrontado com tais terroristas, num tempo de um governo ditatorial iria sentir a mesma orfandade política que agora sinto. Lutar contra uma ditadura através de práticas ditatoriais revela o carácter da ideologia e nunca se pode esquecer a génese das coisas, não se trata de lançar anátemas, ou outro qualquer lugar-comum da comunicação política recente.

Esta hegemonia ideológica, ou chantagem ideológica para ser mais preciso, tem contornos escabrosos quando toma conta do meio literário. É algo de evidente ainda hoje, esses resquícios ainda se revelam no discurso anacrónico da esquerda quando reclama para si a bandeira da cultura.

“No meio literário português dominava largamente, não apenas através das instituições que controlava (da APE à SPA) como através dos compagnons de route sem filiação na extrema-esquerda radical e sem movimentos adequados à sua representação  (…)

Os grandes intelectuais portugueses sentiram-se sempre exilados dentro do seu país, como Fernando Pessoa e Alexandre O’Neill, ou exilados reais, como Jorge de Sena. (…)

A única escritora portuguesa que verdadeiramente escapou a esta hegemonia foi Agustina Bessa-Luís, e por isso ela permanece o ícone intelectual da direita (da nova direita) e por ela é exaltada e venerada. Agustina era o triunfo do individualismo desde que decidira escrever “A Sibila”. Agustina detestava os comunistas, não por serem comunistas mas por não serem livres.”

Por não serem livres, e não são.