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“A cozinha russa…A modesta cozinhita khruschoviana de nove por doze (com sorte!) metros quadrados, atrás da fina parede da casa de banho. Planeamento soviético.  (…) No século XIX toda a cultura russa vivia nas casas apalaçadas, mas no século XX vivia nas cozinhas (…) onde se podia dizer mal do Governo e principalmente não ter medo (…) Ali nasciam ideias, projectos fantásticos. Contavam-se anedotas (…) Comunista era aquele que lia Marx, o anti-comunista era aquela que o compreendia.” O Fim do Homem Soviético, pág. 22

A matéria com que Dostoiévsky compôs a sua obra, antes da Revolução de Outubro, é atirada em bruto para as páginas de  “O Fim do Homem Soviético” deixando o leitor à mercê dos sonhos desfeitos e ressentimento dos relatores a quem a escritora Prémio Nobel da Literatura 2015 Svetlana Aleksievitch deu voz. Os sentimentos são modulados entre o arrebatamento e o choque com a realidade. Poucos livros me tocaram assim, aperta-se um nó no estômago com a crueza de testemunhos de mães e avós. Uma emocionante experiência de imersão literária.

Por outro lado, como leitor inocente, senti-me comunista contagiado que fiquei com a paixão pela ideia, por uma ideia, porque eram livros por todo o lado, pela ingenuidade de querer mudar o mundo e a ingenuidade sempre me enternece, pela compaixão com a desilusão e sofrimento atroz.  É um livro,  cujo título original, traduzido à letra, é “Um Tempo em Segunda Mão”, eminentemente russo na luta pela ideia que esta literatura não abandona, algo de grandioso que não se cumpre, o amor e a morte.

Que liberdade? A liberdade para a nossa gente é como óculos para o macaco. Ninguém sabe o que fazer com ela. (…)

“É uma vergonha alegrar-me com um moinho de café alemão…Mas eu estou feliz!”. Ela que esteve uma noite…só uma noite na bicha para comprar um  livro de Akhamátova, agora ficou doida por causa de um moinho de café. Por uma futilidade assim…E desfez-se do cartão do Partido como de uma coisa inútil. (…)

O tempo induziu-me em erro. Eu acreditava na Grande Revolução de Outubro. Depois de ler Soljenítsin, compreendi que os “belos ideais de comunismo” estão todos ensanguentados. Isso é um engano (…)

Foi o medo que me obrigou a entrar para o Partido…Os bolcheviques de Lenine fuzilaram o meu avô. E os comunistas de Estaline exterminaram os meus pais nos campos de detenção da Mordóvia.”

Os relatos seguem uma ordem, desde o encanto da ditadura aos desumanos escombros de décadas insanas, à indiferença dos jovens russos pelo passado que desprezam, alguns vestidos com  t-shirts do Che Guevara, admirando Lenine; outros que apenas querem ser o Abrámovitch, a posse e o glamour, o encanto pelo vazio. “(…) venderam um grande país por calças de ganga, Marlboro  e pastilhas elásticas”.

“Não tínhamos nada, mas éramos felizes. ” Inúmeras vezes ouvi eu esta afirmação, quer de saudosos salazaristas quer de democratas nascidos antes do 25 de Abril desapontados com o desencanto contemporâneo. É desconcertante. Não a tomo com ânimo ligeiro, não a julgo à luz de um suposto progressismo fruto do correr da História contra os conservadores, a “ideia” é muito mas forte do que podemos julgar vivendo num regime democrático e, propositadamente, amorfo. É capaz de nos seduzir mais do que a beleza de uma pessoa pois basta abraçá-la que nos receberá. Acredito muito nisto, não estamos a salvo.

“Sebastopol é uma cidade russa! Sebastopol será nossa!” Orgulham-se de que um russo seja capaz de beber um litro de vodca sem ficar a cair de bêbedo. Sobre Estaline lembram-se apenas que no tempo dele foram vencedores…

ps: Desconhecia a autora antes de ser anunciado o Prémio Nobel da Literatura deste ano, e parece que é vergonha admitir tal ignorância, mas que prazer é descobrir grandes livros, é a definitiva viagem onírica.

Este livro não consta dos tops anuais compostos em várias revistas tais como a revista E do Expresso ou o Ípsilon do Público. Não me interessam estes rankings que não se emancipam da opinião pessoal, e não duvido da qualidade daquelas obras que lá constam, mas este livro é magistral e o meio literário português tem de se libertar dos fantasmas que o assombram.

Se o “O Fim do Homem Soviético” não desperta paixões, então estaremos castrados.