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Correndo o risco de ser inscrito na lista negra da boçalidade pelo crime de não alinhar no discurso oficial do regime em matéria de costumes, permitam-me que discorde da onomástica que o Bloco de Esquerda propõe para o actual Cartão do Cidadão, na extensão linguística da luta do partido pela igualdade de género.

Longe do equívoco ortográfico de Pilar del Rio na sua bravata pelo título de “Presidenta” da Fundação José Saramago, o BE considera que o nome do documento “não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa”; sendo a sua proposta alterar o nome para “Cartão de Cidadania”.

“Cartão de cidadania” seria uma nomenclatura que certamente resolvia a contenda da igualdade de género, mas introduz um equívoco semântico que ferirá com igual gravidade as sensibilidades literárias, pois a “cidadania” é um atributo, uma qualidade do cidadão ou cidadã. Portanto, seria um cartão onde estariam identificados, por exemplo, os contributos da pessoa em causa para a melhoria da sociedade ou as suas falhas como cidadão ou cidadã. Seria interessante para o debate, mas certamente causaria alguma entropia na repartição das Finanças.

Eu proponho, num assomo de saudosismo serôdio para contrastar com o eminente progressismo, que o mal afamado documento seja nomeado de “Cartão de Identidade”. Antecipo a contestação à minha proposta em forma de ricochete do meu argumento, pois Identidade remete para o existencialismo, e angústias filosóficas também não seriam menos embaraçosas nas repartições.