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Ontem, a SIC, no programa “E Se Fosse Consigo?”, decidiu averiguar se a sociedade portuguesa era racista através de uma encenação num café, onde a personagem pai de família repudiava a relação amorosa que a sua filha anunciava num pranto partilhado com o seu namorado negro.

Ao mesmo tempo, na Catedral, um rapaz negro, de raça e idade identificados para além de qualquer dúvida, carregava a equipa do Benfica às costas, alimentando uma chama que o próprio acendeu em Outubro quando se impôs com a bruta pureza genética da natureza naquele meio-campo temeroso. O speaker anuncia Renato Sanches e o estádio da Luz rejubila rendido ao talento colorido.

Na esplanada onde se passava a cena, uma madura mulher negra mordeu a língua enquanto o execrável pai expunha as suas indefensáveis razões. Quando este saiu, a mulher levantou-se e dirigiu-se ao rapaz negro, “Tu sabes que temos a cor do pecado porque somos negros. Tu sabias, quando namoravas uma branco, o que ias passar. Tu tens que se forte e mostrar a ele que tu és gente.  (…)”. Se esta pessoa escolheu Portugal para viver, cumpre o meu patriotismo. Lamentou-se a indolência de quem, sentado nas mesas em volta, nada fez enquanto a cena durou. Discordo. Ao trauma da violência familiar juntar-se-ia o trauma da violência física e endurecia o lance. Se é a nossa, portuguesa, História que estava em causa, invoco esta sensatez que nos faz sobreviver hà 800 anos.

NBC, o músico de hip hop que participou no debate que se seguiu, argumentou com serenidade que o verdadeiro problema era a pobreza, e não o racismo; e que bem que ele falou, pois ninguém questiona a raça de Isabel dos Santos quando o roçagar da carteira na mala de pele chega aos ouvidos dos mercados. Quanto à pobreza, os guetos que rodeiam Lisboa são suficientemente explicativos.

Voltando aos relvados, outrora, homens negros faziam tremer as pernas de qualquer defesa branco perante o inevitável golo: na Luz, Eusébio e Coluna desafiaram qualquer racista a pronunciar-se.