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O taxista é o português à solta por detrás do volante. Um qualquer fenómeno psíquico-mecânico opera nas mentes dos condutores quando, ao seu alcance, estão um volante e um acelerador; este bizarro quadro clínico acentua-se com o activismo político contra a UBER.

Recorri a táxis várias vezes e, excepto o preço,  não tenho queixas; confesso que nunca usei a UBER e vou especular, deixo esta advertência para quem desconhece a minha tentação de falar do que não sei. É um defeito que partilho com estes senhores que conduzem Mercedes com os bancos forrados de bolinhas de madeira dispostas em rede.

Durante as viagens de táxi em Lisboa, onde mais vezes recorri a esse serviço, testemunhei a revolta dos taxistas contra a inoperância do Ministério da Administração Interna em contraste com a eficaz manutenção da ordem cívica no “tempo do velho”; e dificilmente a viagem terminava sem que eu ficasse a par das mais fervilhantes parangonas do Correio da Manhã. Tratados de sociologia ao longo da recta dos Comandos da Amadora.

Nas viagens de UBER, o condutor apenas fala com o cliente caso este o solicite. Se assim o entender, o cliente poderá emparelhar o seu telemóvel com o sistema áudio da viatura, e ouvir a sua Lana del Rey caso repudie o terço das 5 na Rádio Renascença.  Os motoristas da UBER são os carregadores de liteira do séc. XXI.

Lamento não me comover com o tratamento asséptico deste serviço, mas eu não me envergonho do Portugal profundo. No Eixo do Mal ouvi o Daniel Oliveira a dizer algo de interessante, e que o inscreveria num qualquer partido conservador, ao assumir o inteligente cepticismo perante a novidade, rematando com uma tirada literária: “Não se pode parar o vento com as mãos.”. É verdade, mas o vento passa e as mãos ficam.

Assistimos a uma espécie de Orpheu para pequeninos.