Tags

, , , , , , ,

Consta por aí, e vou especular em matéria de autoclismática, que as sanitas alemãs têm uma configuração horizontal que permite inspeccionar com minúcia o resultado do derradeiro estágio da digestão, contrariando a versão francesa – inspiradora dos artesãos portugueses no ramo dos sanitários – onde uma parede oblíqua faz deslizar a matéria para um pequeno depósito de água, ocultando-a o mais possível da visão sensível dos homens mediterrânicos. Até no alívio da tripa o rigor alemão é desconcertante.

Foi este cirúrgico escrutínio do desperdício corporal que inspirou Joachim Löw, o seleccionador da equipa germânica de futebol, a enfiar as gânfias no nariz em pleno europeu de futebol. Insatisfeito com as fossas nasais, Joachim sucumbiu à sarna que lhe  consome as partes que, segundo o jornalista da RTP que comentou o jogo onde ocorreram estas peripécias, se situam num local recôndito. Não me atrevo discutir a geografia genital dos teutões.

Löw disse recentemente que a selecção portuguesa não o convencia, um homem com gostos tão requintados não será fácil de agradar. Mas esta declaração, juntamente com a de um ex-jogador francês que considera nulas as hipóteses de Portugal na final de Domingo,  estão a causar alguma celeuma nas hostes lusas; eu resfriava a comoção patriótica e atentava nas palavras de Fernando Santos quando confrontado com o desprezo dos adversários: “É música para os meus ouvidos.”, o único engenheiro português que vai cumprir prazos – só voltará dia 11 tal como prometido no início do torneio.

Os nossos contestantes ainda não perceberam que os portugueses têm este defeito de inflamar a motivação com a indignação, precisamos de nos sentir afectados para cerrar os dentes, é a nossa esconjura de medos. E para meu gáudio, os franceses estão a fazer um óptimo trabalho. Vamos ceder-lhes o monopólio do chauvinismo, eles, que já nos deram Balzac e a guilhotina.

Os historiadores não acolhem a teoria de que a História se repete, mas depois de muito sofrer, a França volta a ganhar à Alemanha;  e se o paralelismo com a primeira metade do século passado carece de valor historiográfico, não deixa de ter valor simbólico, o nosso adversário tem razões para euforias, e as estatísticas também lhes sorriem: em 24 jogos contra os lusitanos, os gauleses ganharam 18. Quanto a histórias repetidas, que fiquemos por aqui.

Sente-se já aquela miúfa até então escondida na remota memória nacional,  o difuso filme da preparação do Zidane para bater o penálti na meia-final do Euro 2000, um negrume que paira sobre os painéis de comentadores que agora hesitam nos vaticínios.

Para Domingo, abaixo o patriotismo, viva o hedonismo na bola. Cito Ronaldo, a eloquência possível, “Se perdermos, que se foda”.