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Gostos não se discutem.

Os adágios populares contém uma sabedoria testada pelos séculos, uma filosofia calejada pela necessidade, os lemas de vida dos sobreviventes, e também nos ensinam que a sapiência se cose com as linhas da prudência, da manutenção da paz; julgo ser esse o intuito deste provérbio citado acima: evitar o conflito.

Entre pessoas razoáveis, outra coisa não se discute. Ninguém põe em causa (não estou a contar com universos matemáticos exóticos), sem sacrificar a sua razoabilidade, que o quadrado da hipotenusa seja a soma do quadrado dos catetos que compõe o triângulo que os três formam; mas se a decisão for colorir essa entidade geométrica de azul celeste polvilhado com pintas de rosa-choque, abre-se um espaço de altercação estética. Vamos excluir as ciências exactas porque até neste meio, parece-me que os gostos têm um papel quando se trata de teorias sobre fenómenos carentes de uma explicação sine qua non – por exemplo, a controvérsia científica na questão das alterações climáticas, debate não purgado de questões político-ideológicas.

Nesta contenda podemos tomar uma posição defensiva e não discutir a opção alheia, mas assim estaremos a partir de uma pessoalização da discussão que, francamente, é de bastante mau gosto, pois evita um debate de fundo que pode melhorar os nossos argumentos, bem como nos expor ao desconhecido. Quando se discutem gostos, discutem-se opções, critérios, não se trata de um julgamento moral, de uma qualificação; não é um ataque pessoal, não põe em causa o respeito. Este é o equívoco que está na origem de muitas desavenças, a crítica é assumida como arrogância.

A noção de bom gosto – e eu acredito que tal conceito existe, aqui também se dividem as políticas – pressupõe que sejam decantados, na medida do possível, conceitos subjectivos tais como o valor emocional ou o preconceito.

Tenho a convicção que o mau gosto surge na cedência ao superficial, ao óbvio, ao lugar-comum. A música é uma fonte privilegiada de exemplos: o solidó na guitarra, aquela sequência de acordes que compõe milhares de músicas pop e que serve de respaldo para a falta de imaginação é um exemplo de falta de gosto. Mas se esta sequência compor a canção da vida de alguém, poderá esse indivíduo classificá-la como sendo de mau gosto, pondo de lado todos os sentimentos que lhe despertam em prol de uma fria análise musical? Creio que sim. É legítimo dizer a essa pessoa que a música da sua vida não vale nada, é um hit de rádio, uma coincidência sonora? Não, e discutir gostos dispensa a falta de sensibilidade no trato. Mas este argumento é clássico pela parte de quem defende é contra esta dialéctica.

A subjectividade tem os seus limites, caso contrário, como se distinguem coisas diferentes? Não é Tolstói diferente deste humilde escriba que desperdiça bytes na rede? É uma manifestação do bom gosto afirmar que esta singela crónica é superior, do ponto de vista literário, a um romance como o Guerra e Paz? Gostos discutem-se.

Outro argumento clássico é o objectivo desta discussão, se o objectivo é obter um prazer imediato sem labor intelectual; neste caso, eu só proponho o seguinte: é possível aumentar esse prazer na medida da compreensão daquilo que se aprecia. Não é necessário ser músico para apreciar uma sinfonia, mas rejeitá-la à partida pela sua complexidade é desperdiçar prazer futuro. Há até quem diga, sendo apreciador de techno, house ou qualquer coisa que seja sempre a mesma martelada durante duas horas, que uma sinfonia é aborrecida. Nesses casos, eu aconselho, ficar em silêncio durante algum tempo, arrumar o telemóvel e passar a 9ª Sinfonia de Beethoven, escutando-a com atenção; se ainda assim, for aborrecido, pode desistir, mas deve a si uma tentativa séria (momento Gustavo Santos).

As nossas capacidades sensoriais podem ser treinadas, o cérebro é um músculo; é um investimento que nos engrandece, procurar melhores livros, melhores músicas, melhores filmes, melhores comidas. O mundo fica maior, mais vasto, mais variado se procurarmos sempre o que vai para além do que conhecemos. E quem estabelece esse critério de qualidade, quem dita o cânone do bom gosto? Ninguém. É um trilho individual, de ouvidos atentos, é o caminho percorrido nessa procura que nos civiliza, porque o processo será sempre incompleto (momento Tolentino Mendonça, mas sem a qualidade literária).

A curiosidade é uma prova de bom gosto.

Não se trata de procurar uma superioridade intelectual artificial, ter referências, citações, nomes e datas na ponta da língua; é ter o prazer de perceber quão grandes somos, fomos e seremos.