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É-me indiferente a evidência científica que estabelece um nexo de causalidade entre a actividade humana e as alterações climáticas. O respeito pelo ambiente é uma superior questão de ética, é-me suficiente.

O ambientalismo tem um cariz ascético, austeritário, conservador, incompatível com o excesso consumista da contemporaneidade; os ambientalistas tendem a ceder à arrogância, à evangelização, recorrem a instrumentos retóricos pouco apelativos para a maioria, afastando-se assim da política que tem de ser seduzir pela solidez argumentativa; não pode ser por esta via que se obtém a adesão das massas.

É no domínio da política que o argumento das alterações climáticas pode ser operante com muita eficiência: é preciso ameaçar com o cataclismo climático, e deixar bem claro que a causa tem peugada humana; é preciso transportar o ideal ambientalista para a coisa comum.

Esta eficiência na mensagem foi atingida no documentário “Before The Flood”, protagonizado pelo Leonardo DiCaprio, que tem uma produção à dimensão de Hollywood onde planos grandiosos de glaciares a desfazerem-se e florestas queimadas impactam na sensibilidade, vistas aéreas; onde desfilam figuras imediatamente reconhecíveis num reforço de credibilidade e de apelo à adesão. É um filme esteticamente belíssimo e um exemplar acto de propaganda.

Apoio o activismo Di Caprio – embora o documentário, à semelhança de outros dentro da mesma temática (Inconvenient Truth, Cowspiracy, etc), tenda para a ego-trip do narrador, e a moralização enfatizada da sua mensagem possa ter um efeito contraproducente na paciência dos cidadãos – que usa a sua imagem para dar visibilidade a uma causa, e está a ter muito sucesso nesse propósito uma vez que o filme, disponível no youtube há poucos dias, e já tem milhões de visualizações.

O documentário toca em questões sociais muito importantes: como exigir a países pobres, sem capacidade de escolha que não podem agir para além da sua própria sobrevivência, que não procurem o mesmo estilo de vida do ocidente? Como lidar com os refugiados do clima?

É verdade que urge atacar grandes questões políticas tais como o consumo de combustíveis fósseis, mas eu julgo que a mudança tem de ser pessoal, tem de partir de cada indivíduo.

Falta pouco menos de dois meses para o Natal; ainda assim, com uma antecipação sorrateira, com a pressa ávida do vendilhão, já foi plantada uma enorme árvore de Natal no shopping do Bom Sucesso; já foram espalhadas as renas, luzes estridentes, estrelas brilhantes, adereços vários que despoletam no nosso imaginário ocidental a alegria infantil de prendas embrulhadas e famílias felizes.

São vis no seu propósito, são certeiros na sua estratégia comercial, somos impotentes na resistência ao impulso: chama-se Economia, onde pouco ou nada se economiza.

Vamos consumir o que não precisamos, vamos incitar o sistema a produzir acima das nossas necessidades e muito acima da disponibilidade de recursos a longo prazo. O consumidor tem de educar a Economia.

ps: Ontem, a RTP transmitiu o documentário seguido de um Prós e Contras onde o tema foi debatido; infelizmente, no painel não havia contraditório.