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Lojas de roupa, locais onde entro com uma ansiedade nervosa, açoitado pela necessidade imperiosa de renovar alguma secção caduca do meu guarda roupa.

Não bastasse essa angústia inexplicável – que talvez justificasse uma regressão que pudesse desvendar um qualquer episódio traumático na minha infância e resolver assim a  maleita -, e mal atravesso aquelas placas verticais que guincham com uma estridência exaltada na leve suspeita do furto de um casaco de malha (tivesse o Banco de Portugal o mesmo sistema quando avaliou o BES e ainda agora nos zuniam os tímpanos),  sou logo atordoado por um conjunto de sons que coincide com a paisagem sonora de uma discoteca.

É uma relação estética que parece demasiado óbvia para não conter uma mensagem de rejeição para aqueles que, como eu, sentem um desenraizamento imediato em tais locais assombrados por vaidades geladas; um sentimento reforçado pelos olhares desconfiados dos jovens que neles trabalham: os rapazes, particularmente, olham para mim com o desprezo geralmente atribuído a um traidor, talvez por não ter como eles, uma depilação impecável revelada por t-shirts coloridas decotadas até meio do peito que ostentam com o orgulho de uma raça eugénica.

– Precisa de ajuda? – pergunta-me enquanto enfia um cabide nos ombros de uma camisa feia que, em promoção, custava 39,90€.

– Não, obrigado. Só estou a ver – a resposta evasiva de quem, mais uma vez, hipnotizado pelos anúncios a reduções de 30% nos preços, se apercebeu de que não pertence ali; aliás, usar o substantivo “discoteca” para designar espaços que são sempre designadas pelo seu nome próprio desde os anos noventa, é revelador da minha desadequação.

Não comprei nada, nem precisava.