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Em 1938,  Orson Welles, baseado no romance “A Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, protagonizou um célebre programa de rádio onde simulava uma invasão de marcianos, causando o pânico num público que entendeu ser realidade o que era ficção.

O susto não foi propositado e ficou para a História da rádio apenas como um episódio pitoresco. O mesmo não se pode dizer acerca da proliferação de notícias falsas, e mais cabalístico ainda, provenientes de órgãos noticiosos falsos. Este artigo do The Guardian (ainda vou confiando em alguns) dá conta de casos, nomeadamente a de um grupo de adolescentes na Macedónia que fazia lucro com visualizações de notícias favoráveis a Donald Trump; sabe-se lá quantos votos terá rendido ao agora presidente eleito a difamação de Hillary.

As controversas eleições, EUA e Brexit, agudizaram esta discussão ao ponto da palavra post-truth ser eleita a palavra do ano para definir as “circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”, mas parece-me que se está a incorrer num equívoco.

Tenho a convicção de que a nossa relação com a verdade não se alterou: a tendência por procurar sustentação para preconceitos pessoais, quer em estudos e notícias aparentemente credíveis, ou na adesão em massa à mesma ideia partindo do duvidoso pressuposto que a maioria tem razão, mantém-se; a grande diferença é o poder divulgador da internet, das redes sociais.

Utilizo o fictício termo “pré-rede” para expressar o que julgo ser a era contemporânea onde ainda nos estamos a adaptar à rede, à possibilidade de nos tornarmos indesejavelmente visíveis,  e à nossa necessidade de aprendizagem na filtragem de informação. A tentação de assumir notícias que satisfaçam aquilo que desejamos ser verdade é diabólica, por isso não será um tempo fácil para discussões fundamentadas.