You’re never too old to rock ‘n’ roll

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Metallica é uma instituição de riffs nos bordões da guitarra, um compêndio da palhetada. Nos anos 80 da década passada (gloriosos para o Metal) legaram para a posterioridade musical três álbuns que, de uma forma ou de outra, fazem parte do reportório dos miúdos de 15 anos que estão a aprender a tocar guitarra, deixar crescer o cabelo e a aperceberem-se de que tocar exige uma precisão que lhes vai reclamar um tempo que não estão dispostos a abdicar. A One (sextinas diabólicas) e a Master Of Puppets (palm mute, palhetada para baixo sem alternância) são compêndios de metal e benchmarks para os guitarristas do género na sua capacidade de acompanhar um metrónomo implacável.

Passados mais de vinte anos, e depois de álbuns onde fizeram o que quiseram, porque as grandes bandas arriscam, preparam-se para lançar um álbum que, a julgar pelos dois singles até agora revelados, recupera uma certa energia que não abundava nos anteriores –  a Hardwired cabia como uma luva no “…And Justice For All”.

Saudosismos não convocam mudanças positivas, e eu cresci a ouvir críticas a esta banda (muitas feitas por mim): ou porque cortaram o cabelo, o que em Ponte de Lima, em plenos anos noventa, fez alguns estragos e foi dos  fenómenos mais importantes no mundo do metal porque foi uma afirmação de rebeldia contra um movimento que partiu de uma saudável contra-cultura para se acantonar num dogma que não admitia teclados ou guitarras com som limpo, quando muito, cabelo curto; ou os álbuns não tinham peso suficiente, embora quase ninguém desmerecesse a qualidade dos “Loads”, mas o Ride The Lighting nunca saiu do leitor, confesso; ou..o St. Anger. Bem, quanto a este último, eu acho que quem consegue provocar toda uma comunidade apenas com o estalar de uma tarola, está a demonstrar um poder de influência que poucas bandas têm.

No entanto, tal como aconteceu com o “Book of Souls” dos Maiden, há uma insinuação de despedida, um sprint final, uma vitória sobre a idade; mas uma celebração de energia, uma triunfo sobre a letargia pop. Celebro.

E o que dizer deste senhor, Kiko Loureiro, ex-Angra, actualmente nos Megadeth.

 

O pessimismo dos sessenta

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Arturo-Pérez-Reverte

Eu tenho a convicção de que o pessimismo é um ponto de partida sólido para qualquer raciocínio que envolva o comportamento de pessoas, mas é um estado de alma traído pela sua onomástica, que o remete para o pântano ideológico dos “ismos”; portanto, padece de má fama.

Na infância, era auguro de mau futuro; na adolescência, sinal de paixões não correspondidas (sentimento corrosivo, origem de muitos sintomas semelhantes); na maturidade, para algumas pessoas com um apurado sentido de estética social, é transformado num cepticismo antropológico, e ostentado como inteligência superior à crendice comum – até dispensa o penoso exercício de se pensar sobre as coisas.

Mas, tal como as das drogas leves, quem o consome tem de estar preparado para enfrentar o vício com desprezo, ou sofre as consequências do excesso. Não foi o caso de Arturo Pérez-Reverte, escritor espanhol, que, nesta divertidíssima entrevista ao Público, consumiu o pessimismo com um gozo superior, que parece apenas ao alcance de sexagenários; e como eu já tenho muitas saudades do Vasco Pulido Valente, vou matando essa falta com entrevistas deste calibre.

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Palavras à segunda

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Num daqueles programas de debate futebolístico, onde “gunas” engravatados expandem a sua infância em análises minuciosas a foras-de-jogo duvidosos, alguém disse que estava na “maquiágem” e, por isso,  não viu o primeiro golo do Benfica. “Máquiagem” está para os arranjos estéticos em televisão, como “boate” está para casa de diversão adulta (substitui “putas” por “diversão adulta” em homenagem à noção democrática do pelotão de fuzilamento do politicamente correcto; e não é aquele do Trump, não venham com conversas!).

Ordem de fogo

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Escombros no palco de uma guerra que alimenta a sua própria ressurreição, espalhando cinza na terra fértil donde brotará, de novo, o material de combustão.

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Estas fotos ilustram, mais do que alguns jovens pinheiros que reclamaram muito trabalho desde a sua infância, um estado de alma para quem ainda se comove com candura reaccionária do encanto natural.

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Haja esperança, pois, entre a cacofonia de diagnósticos e expiações, o que mais importa é plantar e bem. Essas espécies, cuja classificação de autóctones remete para uma naturalidade que reconforta pela confiança na ordem natural, no equilíbrio cósmico do ciclo da vida, são, para além de mais sãs, muitíssimo mais belas.

Ressurrection Fest, o Vilar de Mouros galego

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Ouvir, a partir de uma roulote de cachorros e outras iguarias afins, boa parte da banda sonora da minha vida poderia despertar em mim algumas questões existenciais, mas não, sei apenas que estou lugar certo: Ressurrection Fest em Viveiro, na Galiza.

O carro, depois de ter sido admoestado com 300 kms de viagem sob sol escaldante por belíssimos terras, prolongamento a Norte do Minho, ficou arrumado num parque de campismo à espera do nosso regresso num dos autocarros que a organização do festival disponibilizou a troco de 1.5€ por viagem para transitar a malta entre o parque e o festival, a boa impressão começou aqui.

Poucas horas bastaram para ficar impregnado daquele o cheiro acre a festival, uma mistura indefinida de terra, pó, suor e cerveja derramada. No recinto pejado de metaleiros derretidos pelo sol escaldante da tarde, o estômagos destilavam estrella galicia a 2€/20 cl. Não circulava dinheiro nos bares, a cada bebida correspondia um ou mais tokens, pequenas fichas com o valor de 2€ cada uma.

Decorria um concerto num dos palcos, tocavam os Municipal Waste envergando uma tarja onde o crânio de Donald Trump era atravessado por uma bala e de imediato nos apercebemos que o som era fantástico e cheirava a picanha. A comida era particularmente boa, um manjar se comparada com os KFCs e Pizzas Hut do Paredes de Coura.

Iron Maiden? Iguais a si próprios, é um concerto-protótipo. O som? Fantástico, percebe-se tudo o que eles tocaram, fenómeno acústico que não se repetirá segunda-feira, no pavilhão Atlântico. Esta qualidade sonora expandiu-se pelos outros palcos; a seguir entrou Entombed A.D. e, apesar do violência das guitarras e da profunda expectoração do “vocalista”, a coisa era sonoramente digerível.

Ao regressar do concerto, na roulote, passava o “Fear Of The Dark” completo. Descobri um novo Minho e um novo Vilar de Mouros.

Rothen, porcos e maus

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Consta por aí, e vou especular em matéria de autoclismática, que as sanitas alemãs têm uma configuração horizontal que permite inspeccionar com minúcia o resultado do derradeiro estágio da digestão, contrariando a versão francesa – inspiradora dos artesãos portugueses no ramo dos sanitários – onde uma parede oblíqua faz deslizar a matéria para um pequeno depósito de água, ocultando-a o mais possível da visão sensível dos homens mediterrânicos. Até no alívio da tripa o rigor alemão é desconcertante.

Foi este cirúrgico escrutínio do desperdício corporal que inspirou Joachim Löw, o seleccionador da equipa germânica de futebol, a enfiar as gânfias no nariz em pleno europeu de futebol. Insatisfeito com as fossas nasais, Joachim sucumbiu à sarna que lhe  consome as partes que, segundo o jornalista da RTP que comentou o jogo onde ocorreram estas peripécias, se situam num local recôndito. Não me atrevo discutir a geografia genital dos teutões.

Löw disse recentemente que a selecção portuguesa não o convencia, um homem com gostos tão requintados não será fácil de agradar. Mas esta declaração, juntamente com a de um ex-jogador francês que considera nulas as hipóteses de Portugal na final de Domingo,  estão a causar alguma celeuma nas hostes lusas; eu resfriava a comoção patriótica e atentava nas palavras de Fernando Santos quando confrontado com o desprezo dos adversários: “É música para os meus ouvidos.”, o único engenheiro português que vai cumprir prazos – só voltará dia 11 tal como prometido no início do torneio.

Os nossos contestantes ainda não perceberam que os portugueses têm este defeito de inflamar a motivação com a indignação, precisamos de nos sentir afectados para cerrar os dentes, é a nossa esconjura de medos. E para meu gáudio, os franceses estão a fazer um óptimo trabalho. Vamos ceder-lhes o monopólio do chauvinismo, eles, que já nos deram Balzac e a guilhotina.

Os historiadores não acolhem a teoria de que a História se repete, mas depois de muito sofrer, a França volta a ganhar à Alemanha;  e se o paralelismo com a primeira metade do século passado carece de valor historiográfico, não deixa de ter valor simbólico, o nosso adversário tem razões para euforias, e as estatísticas também lhes sorriem: em 24 jogos contra os lusitanos, os gauleses ganharam 18. Quanto a histórias repetidas, que fiquemos por aqui.

Sente-se já aquela miúfa até então escondida na remota memória nacional,  o difuso filme da preparação do Zidane para bater o penálti na meia-final do Euro 2000, um negrume que paira sobre os painéis de comentadores que agora hesitam nos vaticínios.

Para Domingo, abaixo o patriotismo, viva o hedonismo na bola. Cito Ronaldo, a eloquência possível, “Se perdermos, que se foda”.

It’s only a flesh wound

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O Reino Unido fazia parte da UE? A julgar pela discrepância de 2 milímetros no perímetro das maçãs inglesas em relação à média, numa clara violação ao decreto da UE que normaliza o tamanho das leguminosas e demais hortícolas, pensava que a presença inglesa na UE equivalia à aparição daquele tio que apenas se via em casamentos.

Não simpatizo com os argumentos do Leave, o um movimento conta com apoiantes pouco recomendáveis,  mas a liberdade de quase 72% de eleitores em afrontar uma opinião externa desfavorável,  reforçada pela histeria do “ou nós ou o terror”, é admirável e reforça a esperança na liberdade de escolha. As pessoas são maiores do que as instituições.

O que vai acontecer agora? Oitavos de final do Europeu. Mais uma semana e o tema é engolido por um qualquer mergulho de microfone. Se o tema dos refugiados saiu do radar em tão pouco tempo, e nem sequer tem comparação na gravidade, este não durará muito até porque nada acontecerá enquanto o divórcio não formaliza – dois anos é uma eternidade na escala contemporânea-, e quando isso acontecer, já o mundo se habituou à ideia. Uma coisa a internet nos tem ensinado, é que não há nada tão grave que não se torne rapidamente irrelevante.

10.000 anos depois entre José Cid e a barragem do Tua

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Há mais pessoas indignadas com as declarações de José Cid do que com a construção da barragem do Tua. Quanto a patriotismo, I rest my case.

Até Bernardino Barros refreou os remoques ao Benfica acerca do empurrão salazarista nos 60’s para se insurgir contra  o “moncoso” ou “lapouço”, palavras dele.

A hiper-sensibilidade das redes-sociais, onde também eu me alivio, dá nestas coisas. A declaração tem seis anos, mas submergiu na rede, e o protagonista do rock-progressivo nacional, que tinha ressurgido empolado por uma geração entusiasta por descobrir no passado português glórias que justifiquem a fama com que lhe enceram os ouvidos, vê-se impedido de ecoar os acordes de “Como o Macaco Gosta de Bananas” pela terra eriçada (palavras de Miguel Torga e este poeta é insuspeito de antipatias) de Alfândega da Fé.

 

Uma espécie de TIDE académico

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Não foi necessário um dote oracular para adivinhar que José Rodrigues dos Santos (juro que este blogue não pretende homenagear o indivíduo) não esperaria muito tempo pela chibatada intelectual, mas a porfia já tinha a culatra puxada atrás e disparou o escárnio com propriedade.

O jornal Público, que alberga estas bengaladas e por isso é um jornal que ainda mantém alguma erecção, publicou hoje duas crónicas que atiram para o lamaçal da irrelevância as grandes questões que preenchiam a agenda mediática, tais como as considerações estéticas de José Cid sobre os nativos do nordeste português.

Primeiro, foi António Araújo. E desde já faço-lhe a devida saudação onomástica pois tem o mesmo nome que o meu, já falecido, avô. Este historiador que não está pelas medidas quanto a desvios do discurso oficial, e no seu artigo de hoje sopra o pó dos calhamaços que desmentem, com régua e esquadro, a cândida teoria de JRS.

Se JRS não edifica o seu mérito académico em matéria de historiografia política, certamente vende mais alguns exemplares.

Por favor, mantenham a discussão acesa porque, temperada com uma garrafa de vinho, é um pitéu de que me lambuzo.

Rui Tavares também não resistiu, e integrou a procissão de indignados académicos, embarcando na contenda a opinião de Assunção Cristas sobre este enjoativo e demagógico conflito entre escola privada e pública, e as declarações de Schäuble sobre as sanções a Portugal. Apelou à paciência divina, mas equivocou-se no substantivo, porque  coisa é para rir.

É curioso perceber que a indignação académica não deixa de transparecer um certo saudosismo,o equivalente em minudências teóricas ao “no tempo do velho não havia esta pouca-vergonha”; uma esperança na amnésia histórica que tem tanto de ingénuo com de bárbaro. Uma lavagem através do escárnio intelectual. E até têm razão! Haverá tragédia mais cómica?…

Pelo menos, espalha brasas

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Presença assídua na arena pública da traulitada intelectual, José Rodrigues dos Santos, insatisfeito com a labareda, volta a atiçar a fogueira da discussão sobre a hipotética origem marxista do fascismo neste artigo do Público, tese que alimenta o seu último livro.

Não tenho conhecimento científico para apoiar ou refutar as afirmação do jornalista da RTP – aliás, não tenho sequer habilitações para discutir a quantidade óptima de manteiga para barrar numa torrada, por isso escrevo num blogue -,  e até corro o risco de cumprir o papel de advogado do diabo, mas perturba-me o espírito de alcateia que parece mover os seus críticos; mas a minha intuição insinua algumas simplificações nos argumentos de JRS.

Esta discussão desdobra-se em centenas de calhamaços que povoam a bibliografia de várias disciplinas: filosofia, história, sociologia, etc. Por isso, é um pouco perigoso pisar o terreno minado das capelas académicas e assanhar os seus acólitos;  JRS põe-se a jeito quando lhes pisa os calos, é um provocador muito eficiente.

As aplicações práticas, quer do do comunismo, quer do fascismo, implicam sempre uma profunda revolução na sociedade, um darwinismo social segundo os seus critérios de evolução, e fazem tábua-rasa da pluralidade de opinião. Através da radicalização das frentes de batalha, alimentada pela demagogia, originam sangrentas guerras civis e longos totalitarismos. Francamente, isto parece-me óbvio, e desconfio sempre da lucidez e tolerância de quem adere a estas ideologias. No entanto, o comunismo tem um marketing muito mais eficiente pois o fascismo parte sempre de um estágio de violência, onde o comunismo acaba por chegar, mas sempre tem o odioso no discurso.  Isto talvez explique a candura de quem ainda o defende como necessário.

São dois regimes que, do ponto de vista da sua cartilha ideológica têm raízes diferentes, mas ambos se radicam no mesmo sentimento, profundamente humano e destrutivo:  o exercício do poder absoluto.

O JRS envereda por um caminho muito pisado e deveria evitar afirmações tais como: Se acham que o fascismo não tem origens marxistas, façam o favor de desmentir as provas que apresento nos dois romances. E, já agora, aproveitem também para desmentir que o fascismo alemão se designava nacional-socialismo. Como acham que a palavra socialismo foi ali parar? Por acaso? “. É um argumento um tanto ou quanto infantil, mas que pouco se distingue em força argumentativa das teorias da conspiração típicas da esquerda; com ironia involuntária, até aqui os extremos se tocam.

Cartoons daqui.

 

 

Uber, snobismo millennial?

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O taxista é o português à solta por detrás do volante. Um qualquer fenómeno psíquico-mecânico opera nas mentes dos condutores quando, ao seu alcance, estão um volante e um acelerador; este bizarro quadro clínico acentua-se com o activismo político contra a UBER.

Recorri a táxis várias vezes e, excepto o preço,  não tenho queixas; confesso que nunca usei a UBER e vou especular, deixo esta advertência para quem desconhece a minha tentação de falar do que não sei. É um defeito que partilho com estes senhores que conduzem Mercedes com os bancos forrados de bolinhas de madeira dispostas em rede.

Durante as viagens de táxi em Lisboa, onde mais vezes recorri a esse serviço, testemunhei a revolta dos taxistas contra a inoperância do Ministério da Administração Interna em contraste com a eficaz manutenção da ordem cívica no “tempo do velho”; e dificilmente a viagem terminava sem que eu ficasse a par das mais fervilhantes parangonas do Correio da Manhã. Tratados de sociologia ao longo da recta dos Comandos da Amadora.

Nas viagens de UBER, o condutor apenas fala com o cliente caso este o solicite. Se assim o entender, o cliente poderá emparelhar o seu telemóvel com o sistema áudio da viatura, e ouvir a sua Lana del Rey caso repudie o terço das 5 na Rádio Renascença.  Os motoristas da UBER são os carregadores de liteira do séc. XXI.

Lamento não me comover com o tratamento asséptico deste serviço, mas eu não me envergonho do Portugal profundo. No Eixo do Mal ouvi o Daniel Oliveira a dizer algo de interessante, e que o inscreveria num qualquer partido conservador, ao assumir o inteligente cepticismo perante a novidade, rematando com uma tirada literária: “Não se pode parar o vento com as mãos.”. É verdade, mas o vento passa e as mãos ficam.

Assistimos a uma espécie de Orpheu para pequeninos.

A cor do pecado

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Ontem, a SIC, no programa “E Se Fosse Consigo?”, decidiu averiguar se a sociedade portuguesa era racista através de uma encenação num café, onde a personagem pai de família repudiava a relação amorosa que a sua filha anunciava num pranto partilhado com o seu namorado negro.

Ao mesmo tempo, na Catedral, um rapaz negro, de raça e idade identificados para além de qualquer dúvida, carregava a equipa do Benfica às costas, alimentando uma chama que o próprio acendeu em Outubro quando se impôs com a bruta pureza genética da natureza naquele meio-campo temeroso. O speaker anuncia Renato Sanches e o estádio da Luz rejubila rendido ao talento colorido.

Na esplanada onde se passava a cena, uma madura mulher negra mordeu a língua enquanto o execrável pai expunha as suas indefensáveis razões. Quando este saiu, a mulher levantou-se e dirigiu-se ao rapaz negro, “Tu sabes que temos a cor do pecado porque somos negros. Tu sabias, quando namoravas uma branco, o que ias passar. Tu tens que se forte e mostrar a ele que tu és gente.  (…)”. Se esta pessoa escolheu Portugal para viver, cumpre o meu patriotismo. Lamentou-se a indolência de quem, sentado nas mesas em volta, nada fez enquanto a cena durou. Discordo. Ao trauma da violência familiar juntar-se-ia o trauma da violência física e endurecia o lance. Se é a nossa, portuguesa, História que estava em causa, invoco esta sensatez que nos faz sobreviver hà 800 anos.

NBC, o músico de hip hop que participou no debate que se seguiu, argumentou com serenidade que o verdadeiro problema era a pobreza, e não o racismo; e que bem que ele falou, pois ninguém questiona a raça de Isabel dos Santos quando o roçagar da carteira na mala de pele chega aos ouvidos dos mercados. Quanto à pobreza, os guetos que rodeiam Lisboa são suficientemente explicativos.

Voltando aos relvados, outrora, homens negros faziam tremer as pernas de qualquer defesa branco perante o inevitável golo: na Luz, Eusébio e Coluna desafiaram qualquer racista a pronunciar-se.