Une Jeunesse Allemande

Tags

, , , , , , ,

une-jeunesse-allemande

Este documentário francês retrata a evolução do grupo Baader-Meinhof, desde o movimento artístico, do activismo político, até à acção concreta, a actividade terrorista ocorrida na Alemanha dos anos setenta. É uma geração que procura afirmar-se através da ruptura com a anterior. Recentemente, no debate do Brexit, surgiu também a semente deste repúdio pelas velhas gerações por oposição à exaltação da revolução levada a cabo por uma juventude renovadora e idealista.

No entanto, neste caso em particular de Meinhof , a identificação da geração dos pais com a Alemanha que acolheu a loucura nazi, ora com entusiasmo, ora com aceitação; dota esta juventude de argumentos difíceis de rebater numa sociedade onde, a julgar pelo documentário, parecia dividida pela prudência daquelas que viveram um regime ditatorial, e aqueles que pretendem instaurar um novo regime de sinal oposto.

O documentário é fascinante, apesar da maçadora metralhada de retórica marxista que soa artificial, um veículo para as ego trips dos protagonistas.

Advertisements

Uniformização, afinal?

Tags

, , , , , , , ,

Ainda o Acordo Ortográfico de 1990. Este processo, cujos contornos são cada vez mais imperceptíveis, à medida que os seus defensores, anos depois da implementação do dito cujo, vão emitindo opiniões em forma de rescaldo, desviando-se com grande estrondo das pretensões iniciais do acordo, naquele exercício de aproveitamento da amnésia colectiva que poda os detalhes da discussão pública, ainda não cessou de causar espantos, sempre variados.

Tenho a noção de que a oposição ao acordo me atira para o lado do conservadorismo, rótulo imediato para quem questiona a mudança (sempre julguei ser o espírito crítico um sinal de progresso, mas ora me espanto, ora me desencanto, já dizia a cantiga), mas este processo tem contornos de falcatrua e eu não gosto de ser tomado por lorpa. Parece até, que constitui uma afirmação progressista (no sentido utópico da palavra, ou seja, o máximo benefício para todos; porque se pode progredir da borda de um penhasco, para o abismo na sua base, tratando-se um progresso) abraçar este acordo e, através do açoite verbal, exilar os seus opositores num quarto bafiento para que se cubram com as teias-de-aranha do saudosismo. Não tardarão a dizer que a grafia pré-AO era a língua do Salazar – é uma dica com a qual, certamente, o deputado João Galamba se sensibilizaria; mas, para o bem e para o mal, ele não se tentará em enfiar esta atordoada na sua retórica plena de “entos” pendurados no fim dos adjectivos, pois nem a mesma tem a elegância que lhe convém, nem este pasquim digital é frequentado pela aristocracia intelectual lisboeta.

Hoje, em entrevista ao Expresso, a Presidente do Instituto Camões, Ana Paula Laborinho (faço referência à pessoa, sem qualquer intenção de julgamento de carácter, pretendo discutir ideias, apenas; apesar das águas turbulentas, e o batel abanar, remamos no mesmo sentido), afirmou o seguinte, numa conversa que se iniciou com as estatísticas costumeiras sobre os número de falantes de língua portuguesa (ah, o assomo patriótico com os milhões disto e daquilo…), e que se precipitou num tema que se anunciava como inevitável, tendo em conta o tema da entrevista e o cargo da entrevistada:

ao-entrevista-expresso-inst-camoes-i

Repare, minha cara senhora, cumprindo o papel de indignado das redes, se eu exclamasse com espanto perante o êxtase da sua resposta, com um resmungado “A menina deve estar a gozar comigo?”; arriscaria numa interpretação, se partindo do português de Portugal, através do qual, se por um lado se poderia concluir concluir a exclamação conter um elogio inicial à aparência jovem de uma senhora que nascera dezassete anos antes do 25 de Abril, mas ao qual se seguiria um impropério que deitaria por água abaixo qualquer simpatia causada pelo duvidoso elogio – que nos dias que correm é tomado por uma discriminação sexual, tendo em conta a referência estética, e é de mau gosto, admito; ainda bem que estamos no campo da especulação, pois eu nunca me dirigiria assim à senhora, embora a urticária do tema me faça perder um pouco as estribeiras com a comichão que me provoca.

Imagine então, que por qualquer capricho do caos cósmico, a senhora nascera no Brasil. Já viu, que equívoco embaraçoso se poderia dar entre nós, se a senhora tomasse à letra a minha exclamação? Eu passaria por alarve – ao-expresso-instituot-camoes-iiestatuto que me é reconhecido sem precisar de potenciar equívocos linguísticos  – e a senhora por pouco perspicaz ao não alcançar as distinções semânticas entre o português de Portugal e o do Brasil. Daí o meu espanto, com a elevação que aplica nesse prodígio.

Então, o AO (que pode ser consultado aqui) trata da ortografia, da semântica ou de ambas? Em que ficamos? De que forma o AO viabiliza um ensino da língua uniforme tendo em conta as profundas, e enriquecedoras diferenças (tal com o a presidente do Instituto Camões o afirma, nesta mesma entrevista)? A resposta de entrevistada tem algo de especulativo, parece enunciar uma expectativa, não tem carácter de afirmação; ainda assim não deixa de ser surpreendente esperar efeitos beatíficos de uma norma tão limitada, quer pelo alcance intrínseco, quer pela sua subreptícia implementação.

O elogio à diversidade linguística, do qual partilho com o maior entusiasmo, não é compatível com a aspiração à uniformização. Afinal, que limitações, que não as de mercado ou de marketing, impedem os leitores das várias nacionalidades se lerem entre si? Há alguma necessidade de traduzir o português do Brasil e vice-versa, para além da compensação da cretinice, da ignorância? Francamente, não me parece, e, tendo em conta um futuro cosmopolita, cultivador da diversidade, o AO já é obsoleto. Abaixo.

Para finalizar, presumo que o AO ainda não estivesse implementado na altura em que foi escrito e publicado no site da FCT, a julgar pelas consoantes condenadas que vão ainda sobrevivendo no quarto artigo.

“Artigo 4.º

Os Estados signatários adoptarão as medidas que entenderem adequadas ao efectivo respeito da data da entrada em vigor estabelecida no artigo 3.º”

O bom gosto

Tags

, , ,

Gostos não se discutem.

Os adágios populares contém uma sabedoria testada pelos séculos, uma filosofia calejada pela necessidade, os lemas de vida dos sobreviventes, e também nos ensinam que a sapiência se cose com as linhas da prudência, da manutenção da paz; julgo ser esse o intuito deste provérbio citado acima: evitar o conflito.

Entre pessoas razoáveis, outra coisa não se discute. Ninguém põe em causa (não estou a contar com universos matemáticos exóticos), sem sacrificar a sua razoabilidade, que o quadrado da hipotenusa seja a soma do quadrado dos catetos que compõe o triângulo que os três formam; mas se a decisão for colorir essa entidade geométrica de azul celeste polvilhado com pintas de rosa-choque, abre-se um espaço de altercação estética. Vamos excluir as ciências exactas porque até neste meio, parece-me que os gostos têm um papel quando se trata de teorias sobre fenómenos carentes de uma explicação sine qua non – por exemplo, a controvérsia científica na questão das alterações climáticas, debate não purgado de questões político-ideológicas.

Nesta contenda podemos tomar uma posição defensiva e não discutir a opção alheia, mas assim estaremos a partir de uma pessoalização da discussão que, francamente, é de bastante mau gosto, pois evita um debate de fundo que pode melhorar os nossos argumentos, bem como nos expor ao desconhecido. Quando se discutem gostos, discutem-se opções, critérios, não se trata de um julgamento moral, de uma qualificação; não é um ataque pessoal, não põe em causa o respeito. Este é o equívoco que está na origem de muitas desavenças, a crítica é assumida como arrogância.

A noção de bom gosto – e eu acredito que tal conceito existe, aqui também se dividem as políticas – pressupõe que sejam decantados, na medida do possível, conceitos subjectivos tais como o valor emocional ou o preconceito.

Tenho a convicção que o mau gosto surge na cedência ao superficial, ao óbvio, ao lugar-comum. A música é uma fonte privilegiada de exemplos: o solidó na guitarra, aquela sequência de acordes que compõe milhares de músicas pop e que serve de respaldo para a falta de imaginação é um exemplo de falta de gosto. Mas se esta sequência compor a canção da vida de alguém, poderá esse indivíduo classificá-la como sendo de mau gosto, pondo de lado todos os sentimentos que lhe despertam em prol de uma fria análise musical? Creio que sim. É legítimo dizer a essa pessoa que a música da sua vida não vale nada, é um hit de rádio, uma coincidência sonora? Não, e discutir gostos dispensa a falta de sensibilidade no trato. Mas este argumento é clássico pela parte de quem defende é contra esta dialéctica.

A subjectividade tem os seus limites, caso contrário, como se distinguem coisas diferentes? Não é Tolstói diferente deste humilde escriba que desperdiça bytes na rede? É uma manifestação do bom gosto afirmar que esta singela crónica é superior, do ponto de vista literário, a um romance como o Guerra e Paz? Gostos discutem-se.

Outro argumento clássico é o objectivo desta discussão, se o objectivo é obter um prazer imediato sem labor intelectual; neste caso, eu só proponho o seguinte: é possível aumentar esse prazer na medida da compreensão daquilo que se aprecia. Não é necessário ser músico para apreciar uma sinfonia, mas rejeitá-la à partida pela sua complexidade é desperdiçar prazer futuro. Há até quem diga, sendo apreciador de techno, house ou qualquer coisa que seja sempre a mesma martelada durante duas horas, que uma sinfonia é aborrecida. Nesses casos, eu aconselho, ficar em silêncio durante algum tempo, arrumar o telemóvel e passar a 9ª Sinfonia de Beethoven, escutando-a com atenção; se ainda assim, for aborrecido, pode desistir, mas deve a si uma tentativa séria (momento Gustavo Santos).

As nossas capacidades sensoriais podem ser treinadas, o cérebro é um músculo; é um investimento que nos engrandece, procurar melhores livros, melhores músicas, melhores filmes, melhores comidas. O mundo fica maior, mais vasto, mais variado se procurarmos sempre o que vai para além do que conhecemos. E quem estabelece esse critério de qualidade, quem dita o cânone do bom gosto? Ninguém. É um trilho individual, de ouvidos atentos, é o caminho percorrido nessa procura que nos civiliza, porque o processo será sempre incompleto (momento Tolentino Mendonça, mas sem a qualidade literária).

A curiosidade é uma prova de bom gosto.

Não se trata de procurar uma superioridade intelectual artificial, ter referências, citações, nomes e datas na ponta da língua; é ter o prazer de perceber quão grandes somos, fomos e seremos.

 

 

You’re never too old to rock ‘n’ roll

Tags

, , , , , , , , , ,

Metallica é uma instituição de riffs nos bordões da guitarra, um compêndio da palhetada. Nos anos 80 da década passada (gloriosos para o Metal) legaram para a posterioridade musical três álbuns que, de uma forma ou de outra, fazem parte do reportório dos miúdos de 15 anos que estão a aprender a tocar guitarra, deixar crescer o cabelo e a aperceberem-se de que tocar exige uma precisão que lhes vai reclamar um tempo que não estão dispostos a abdicar. A One (sextinas diabólicas) e a Master Of Puppets (palm mute, palhetada para baixo sem alternância) são compêndios de metal e benchmarks para os guitarristas do género na sua capacidade de acompanhar um metrónomo implacável.

Passados mais de vinte anos, e depois de álbuns onde fizeram o que quiseram, porque as grandes bandas arriscam, preparam-se para lançar um álbum que, a julgar pelos dois singles até agora revelados, recupera uma certa energia que não abundava nos anteriores –  a Hardwired cabia como uma luva no “…And Justice For All”.

Saudosismos não convocam mudanças positivas, e eu cresci a ouvir críticas a esta banda (muitas feitas por mim): ou porque cortaram o cabelo, o que em Ponte de Lima, em plenos anos noventa, fez alguns estragos e foi dos  fenómenos mais importantes no mundo do metal porque foi uma afirmação de rebeldia contra um movimento que partiu de uma saudável contra-cultura para se acantonar num dogma que não admitia teclados ou guitarras com som limpo, quando muito, cabelo curto; ou os álbuns não tinham peso suficiente, embora quase ninguém desmerecesse a qualidade dos “Loads”, mas o Ride The Lighting nunca saiu do leitor, confesso; ou..o St. Anger. Bem, quanto a este último, eu acho que quem consegue provocar toda uma comunidade apenas com o estalar de uma tarola, está a demonstrar um poder de influência que poucas bandas têm.

No entanto, tal como aconteceu com o “Book of Souls” dos Maiden, há uma insinuação de despedida, um sprint final, uma vitória sobre a idade; mas uma celebração de energia, uma triunfo sobre a letargia pop. Celebro.

E o que dizer deste senhor, Kiko Loureiro, ex-Angra, actualmente nos Megadeth.

 

O pessimismo dos sessenta

Tags

, ,

Arturo-Pérez-Reverte

Eu tenho a convicção de que o pessimismo é um ponto de partida sólido para qualquer raciocínio que envolva o comportamento de pessoas, mas é um estado de alma traído pela sua onomástica, que o remete para o pântano ideológico dos “ismos”; portanto, padece de má fama.

Na infância, era auguro de mau futuro; na adolescência, sinal de paixões não correspondidas (sentimento corrosivo, origem de muitos sintomas semelhantes); na maturidade, para algumas pessoas com um apurado sentido de estética social, é transformado num cepticismo antropológico, e ostentado como inteligência superior à crendice comum – até dispensa o penoso exercício de se pensar sobre as coisas.

Mas, tal como as das drogas leves, quem o consome tem de estar preparado para enfrentar o vício com desprezo, ou sofre as consequências do excesso. Não foi o caso de Arturo Pérez-Reverte, escritor espanhol, que, nesta divertidíssima entrevista ao Público, consumiu o pessimismo com um gozo superior, que parece apenas ao alcance de sexagenários; e como eu já tenho muitas saudades do Vasco Pulido Valente, vou matando essa falta com entrevistas deste calibre.

Arturo-Pérez-Reverte2

Palavras à segunda

Tags

,

Num daqueles programas de debate futebolístico, onde “gunas” engravatados expandem a sua infância em análises minuciosas a foras-de-jogo duvidosos, alguém disse que estava na “maquiágem” e, por isso,  não viu o primeiro golo do Benfica. “Máquiagem” está para os arranjos estéticos em televisão, como “boate” está para casa de diversão adulta (substitui “putas” por “diversão adulta” em homenagem à noção democrática do pelotão de fuzilamento do politicamente correcto; e não é aquele do Trump, não venham com conversas!).

Ordem de fogo

Tags

, , ,

monte-incendio-ponte-lima

Escombros no palco de uma guerra que alimenta a sua própria ressurreição, espalhando cinza na terra fértil donde brotará, de novo, o material de combustão.

incendio-ponte-lima-201608

Estas fotos ilustram, mais do que alguns jovens pinheiros que reclamaram muito trabalho desde a sua infância, um estado de alma para quem ainda se comove com candura reaccionária do encanto natural.

incendio-ponte-lima-pinheiro-201608

Haja esperança, pois, entre a cacofonia de diagnósticos e expiações, o que mais importa é plantar e bem. Essas espécies, cuja classificação de autóctones remete para uma naturalidade que reconforta pela confiança na ordem natural, no equilíbrio cósmico do ciclo da vida, são, para além de mais sãs, muitíssimo mais belas.

Ressurrection Fest, o Vilar de Mouros galego

Tags

, , , , , , ,

maiden-ressurrection-fest-viveiro-2016

Ouvir, a partir de uma roulote de cachorros e outras iguarias afins, boa parte da banda sonora da minha vida poderia despertar em mim algumas questões existenciais, mas não, sei apenas que estou lugar certo: Ressurrection Fest em Viveiro, na Galiza.

O carro, depois de ter sido admoestado com 300 kms de viagem sob sol escaldante por belíssimos terras, prolongamento a Norte do Minho, ficou arrumado num parque de campismo à espera do nosso regresso num dos autocarros que a organização do festival disponibilizou a troco de 1.5€ por viagem para transitar a malta entre o parque e o festival, a boa impressão começou aqui.

Poucas horas bastaram para ficar impregnado daquele o cheiro acre a festival, uma mistura indefinida de terra, pó, suor e cerveja derramada. No recinto pejado de metaleiros derretidos pelo sol escaldante da tarde, o estômagos destilavam estrella galicia a 2€/20 cl. Não circulava dinheiro nos bares, a cada bebida correspondia um ou mais tokens, pequenas fichas com o valor de 2€ cada uma.

Decorria um concerto num dos palcos, tocavam os Municipal Waste envergando uma tarja onde o crânio de Donald Trump era atravessado por uma bala e de imediato nos apercebemos que o som era fantástico e cheirava a picanha. A comida era particularmente boa, um manjar se comparada com os KFCs e Pizzas Hut do Paredes de Coura.

Iron Maiden? Iguais a si próprios, é um concerto-protótipo. O som? Fantástico, percebe-se tudo o que eles tocaram, fenómeno acústico que não se repetirá segunda-feira, no pavilhão Atlântico. Esta qualidade sonora expandiu-se pelos outros palcos; a seguir entrou Entombed A.D. e, apesar do violência das guitarras e da profunda expectoração do “vocalista”, a coisa era sonoramente digerível.

Ao regressar do concerto, na roulote, passava o “Fear Of The Dark” completo. Descobri um novo Minho e um novo Vilar de Mouros.

Rothen, porcos e maus

Tags

, , , , , , ,

Consta por aí, e vou especular em matéria de autoclismática, que as sanitas alemãs têm uma configuração horizontal que permite inspeccionar com minúcia o resultado do derradeiro estágio da digestão, contrariando a versão francesa – inspiradora dos artesãos portugueses no ramo dos sanitários – onde uma parede oblíqua faz deslizar a matéria para um pequeno depósito de água, ocultando-a o mais possível da visão sensível dos homens mediterrânicos. Até no alívio da tripa o rigor alemão é desconcertante.

Foi este cirúrgico escrutínio do desperdício corporal que inspirou Joachim Löw, o seleccionador da equipa germânica de futebol, a enfiar as gânfias no nariz em pleno europeu de futebol. Insatisfeito com as fossas nasais, Joachim sucumbiu à sarna que lhe  consome as partes que, segundo o jornalista da RTP que comentou o jogo onde ocorreram estas peripécias, se situam num local recôndito. Não me atrevo discutir a geografia genital dos teutões.

Löw disse recentemente que a selecção portuguesa não o convencia, um homem com gostos tão requintados não será fácil de agradar. Mas esta declaração, juntamente com a de um ex-jogador francês que considera nulas as hipóteses de Portugal na final de Domingo,  estão a causar alguma celeuma nas hostes lusas; eu resfriava a comoção patriótica e atentava nas palavras de Fernando Santos quando confrontado com o desprezo dos adversários: “É música para os meus ouvidos.”, o único engenheiro português que vai cumprir prazos – só voltará dia 11 tal como prometido no início do torneio.

Os nossos contestantes ainda não perceberam que os portugueses têm este defeito de inflamar a motivação com a indignação, precisamos de nos sentir afectados para cerrar os dentes, é a nossa esconjura de medos. E para meu gáudio, os franceses estão a fazer um óptimo trabalho. Vamos ceder-lhes o monopólio do chauvinismo, eles, que já nos deram Balzac e a guilhotina.

Os historiadores não acolhem a teoria de que a História se repete, mas depois de muito sofrer, a França volta a ganhar à Alemanha;  e se o paralelismo com a primeira metade do século passado carece de valor historiográfico, não deixa de ter valor simbólico, o nosso adversário tem razões para euforias, e as estatísticas também lhes sorriem: em 24 jogos contra os lusitanos, os gauleses ganharam 18. Quanto a histórias repetidas, que fiquemos por aqui.

Sente-se já aquela miúfa até então escondida na remota memória nacional,  o difuso filme da preparação do Zidane para bater o penálti na meia-final do Euro 2000, um negrume que paira sobre os painéis de comentadores que agora hesitam nos vaticínios.

Para Domingo, abaixo o patriotismo, viva o hedonismo na bola. Cito Ronaldo, a eloquência possível, “Se perdermos, que se foda”.

It’s only a flesh wound

Tags

, , , ,


O Reino Unido fazia parte da UE? A julgar pela discrepância de 2 milímetros no perímetro das maçãs inglesas em relação à média, numa clara violação ao decreto da UE que normaliza o tamanho das leguminosas e demais hortícolas, pensava que a presença inglesa na UE equivalia à aparição daquele tio que apenas se via em casamentos.

Não simpatizo com os argumentos do Leave, o um movimento conta com apoiantes pouco recomendáveis,  mas a liberdade de quase 72% de eleitores em afrontar uma opinião externa desfavorável,  reforçada pela histeria do “ou nós ou o terror”, é admirável e reforça a esperança na liberdade de escolha. As pessoas são maiores do que as instituições.

O que vai acontecer agora? Oitavos de final do Europeu. Mais uma semana e o tema é engolido por um qualquer mergulho de microfone. Se o tema dos refugiados saiu do radar em tão pouco tempo, e nem sequer tem comparação na gravidade, este não durará muito até porque nada acontecerá enquanto o divórcio não formaliza – dois anos é uma eternidade na escala contemporânea-, e quando isso acontecer, já o mundo se habituou à ideia. Uma coisa a internet nos tem ensinado, é que não há nada tão grave que não se torne rapidamente irrelevante.

10.000 anos depois entre José Cid e a barragem do Tua

Tags

, , ,

cid-tua

Há mais pessoas indignadas com as declarações de José Cid do que com a construção da barragem do Tua. Quanto a patriotismo, I rest my case.

Até Bernardino Barros refreou os remoques ao Benfica acerca do empurrão salazarista nos 60’s para se insurgir contra  o “moncoso” ou “lapouço”, palavras dele.

A hiper-sensibilidade das redes-sociais, onde também eu me alivio, dá nestas coisas. A declaração tem seis anos, mas submergiu na rede, e o protagonista do rock-progressivo nacional, que tinha ressurgido empolado por uma geração entusiasta por descobrir no passado português glórias que justifiquem a fama com que lhe enceram os ouvidos, vê-se impedido de ecoar os acordes de “Como o Macaco Gosta de Bananas” pela terra eriçada (palavras de Miguel Torga e este poeta é insuspeito de antipatias) de Alfândega da Fé.

 

Uma espécie de TIDE académico

Tags

, , , , ,

Não foi necessário um dote oracular para adivinhar que José Rodrigues dos Santos (juro que este blogue não pretende homenagear o indivíduo) não esperaria muito tempo pela chibatada intelectual, mas a porfia já tinha a culatra puxada atrás e disparou o escárnio com propriedade.

O jornal Público, que alberga estas bengaladas e por isso é um jornal que ainda mantém alguma erecção, publicou hoje duas crónicas que atiram para o lamaçal da irrelevância as grandes questões que preenchiam a agenda mediática, tais como as considerações estéticas de José Cid sobre os nativos do nordeste português.

Primeiro, foi António Araújo. E desde já faço-lhe a devida saudação onomástica pois tem o mesmo nome que o meu, já falecido, avô. Este historiador que não está pelas medidas quanto a desvios do discurso oficial, e no seu artigo de hoje sopra o pó dos calhamaços que desmentem, com régua e esquadro, a cândida teoria de JRS.

Se JRS não edifica o seu mérito académico em matéria de historiografia política, certamente vende mais alguns exemplares.

Por favor, mantenham a discussão acesa porque, temperada com uma garrafa de vinho, é um pitéu de que me lambuzo.

Rui Tavares também não resistiu, e integrou a procissão de indignados académicos, embarcando na contenda a opinião de Assunção Cristas sobre este enjoativo e demagógico conflito entre escola privada e pública, e as declarações de Schäuble sobre as sanções a Portugal. Apelou à paciência divina, mas equivocou-se no substantivo, porque  coisa é para rir.

É curioso perceber que a indignação académica não deixa de transparecer um certo saudosismo,o equivalente em minudências teóricas ao “no tempo do velho não havia esta pouca-vergonha”; uma esperança na amnésia histórica que tem tanto de ingénuo com de bárbaro. Uma lavagem através do escárnio intelectual. E até têm razão! Haverá tragédia mais cómica?…