Joseph Stiglitz garante não existir evidência que demonstre que a austeridade é o caminho certo para sair da crise. “Estaremos a fazer história se a austeridade funcionar”. Daqui.
Ponham historiadores no lugar dos econmistas parte II
22 01 2012Comments : Leave a Comment »
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Ano novo, nova língua
3 01 2012
É difícil de compreender o barulho à volta das mudanças introduzidas na língua portuguesa pelo novo acordo ortográfico. Não estamos perante uma subversão das particularidades da oralidade da língua à masturbação intelectual de alguns académicos, digo isto como português, mas reconheço as claras diferenças de pronúncia que inviabilizam mudanças na secretaria, tal como bebé e bebê. A palavra peren(p)tório perde a sua determinação com o desaparecimento do “p”, embora seja opcional, já que admite ortografia dupla. O contra-almirante mantém o seu posto.
A supressão do hífen é uma espécie de depilação ortográfica, um português à brasileira, beleza estética no texto que se perdia com os solavancos dos hífenes, restringindo-se estes às palavras que realmente deles necessitam. No verbo haver, a famosa conjugação “hades cá vir” continuará a soar na Casa dos Segredos, mas escrever-se-à “hás de cá vir”. O que me espanta é a existência desse sinal com tanta abundância. Desde que comecei a ler Saramago, um joalheiro das palavras que as poliu até ao limite do seu brilho, nunca mais fui o mesmo.
E como cada um tem os seus Velhos do Restelo, personagem usada para desqualificar aqueles que não de acordo connosco numa mudança importante, considera-se o acordo um atentado à língua de Lvis de Camões. É um paradoxo. Pouco da língua que hoje falamos, caberia na compreensão poeta. Qual não seria o seu espanto quando se desse conta que lhe roubaram o “c” e o “y” da sua “occidental praya lusitana”.
Bem dizia um dos fundadores da nossa língua, numa espécie de profecia freudiana, encontrando na excessiva sensibilidade patriótica a falta de qualquer concretização anterior, dito isto em plena época dos Descobrimentos por um dos seus activos participantes, na sua pouco aclamada “Peregrinaçam”, subvalorizada pelas razões que nunca mudaram, essas não tem acordo que lhes valha. Porque haveriam de mudar as vontades se não mudaram as gentes, esse afamado de mentiroso, “Fernão, Mentes? Minto!” mal sabiam as más línguas que havia sido antecipado o anti-herói na literatura, um homem só mente se se comprometer a professar a verdade, e não se lhe conhece essa intenção, ou não professou a verdade que mais convinha àqueles que por conveniência patriótica tinham mais olhos para poemas épicos.
O novo Acordo ortográfico pode ser consultado aqui.
PS: Aquando da Reforma Ortográfica de 1911, aí sim, foram feitas profundas alterações no português, quase criando uma nova língua escrita, de que ainda agora se fala “Dantes escrevia-se farmácia com ph, sabias?”. O português escrito, nesse tempo, estava muito mais distante da língua falada, ditongo escrevia-se diphthongo, é um formalismo sem sentido, a não ser que se lesse “difetongo”, dobrando a língua no “th” criando um efeito sonoro inglesado. Eis algumas opiniõ0es inflamadas.
E Teixeira de Pascoaes:
Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavraabysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.[5]Ainda, Fernando Pessoa:
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.[6]
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24 11 2011
Ide mas é trabalhar!, dizia um homem cansado enquanto pagava a despesa. Não sou a favor de greves, mas se não fizerem barulho estamos fodidos. Ouvia-se por detrás do balcão, contava o troco, espreitando por cima dos óculos. Se te puserem a mão no cu, também a sacodes! Fez o gesto. Não sou a favor nem contra as greves, mas…Pedi-lhe dois pães. Resmungava em silêncio por tão mísero e habitual pedido. Na televisão, pendurada no tecto do café vazio, não se falava de outra coisa. Alguns ilustres, a malta do costume, falam de boca cheia, diz que as greves estão fora de moda, há outras formas de as pessoas participarem na causa pública, o voto.
Cheguei a casa e comecei a escrever isto. Na stream da futura ex-RTP, não tenho televisão, é quase hora do Telejornal, pede-se 18 e meio pela montra, é pouco, a viagem é cara e a margem curta, não ganhou, parece que todos perdemos. A simpatia sincera do apresentador e a saloiice ainda mais sincera envergonham o país, diz que não é serviço público. Pelo menos este não fez greve. No direito de antena reivindicam-se direitos, a ANECRA diz que como dantes vamos dobrar o cabo das tormentas. Quem tem vergonha dos saloios, tem-na das naus. 2 feridos e 2 detidos na assembleia, nada mau, costumam ser 10 milhões de sinistrados, cada vez que de lá saem notícias, e detidos não costuma ser nenhum. As naus são aquelas barreiras derrubadas com timidez, outras ficaram de pé, fecham-se obre nós, não as vemos, mas sabemos que lá etão. Somos lixo, dizem-nos de fora, cá dentro dizemo-lo há anos.
“Who would be a poor man, a beggarman, a thief –
If he had a rich man in his hand.
And who would steal the candy
From a laughing baby’s mouth
If he could take it from the money man. (…)”
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Demagogia Quizz
23 11 2011A revista Sábado decidiu fazer um pouco de chacota com o pessoal, utilizando a velha técnica das perguntas aleatórias atiradas para o ar, seleccionando as respostas erradas, e concluir com o diagnóstico de ignorância crónica dos entrevistados, neste caso, são universitários incautos.
A ignorância dos outros tem muita piada, também me ri, mas o restante burburinho é saloiice.
Uma das perguntas, era quem escreveu o “Envangelho Segundo Jesus Cristo”. Houve quem não sabia. O Sousa Lara censurou esta obra (é esta a palavra) com base em princípios dogmáticos e políticos, e era ministro. Ou não o leu, ou não o compreendeu. Portanto a “ignorância” dos universitários é condizente, o país não aceitou o mais genial escritor da língua portuguesa, porque era comunista e não usava pontuação (esse argumento brilhante de pseudo-intelectuais que não leram Saramago).
Um exemplo desta histeria, é um artigo do Manuel Serrão(MS) no JN. Também ele constata este apocalipse intelectual. Imagine-se até, que havia pessoas que não sabiam o nome do actor que interpretou o Padrinho, impressionante, como não superam este benchmark de cultura geral, seja lá o que isso for…
Um homem que nunca tenha lido um livro, visto um filme, que nunca tenha sequer escrito o próprio nome, é esse homem um ignorante, se tudo o que saiba seja o suficiente para ser feliz?
Há um complexo em relação à ignorância, na geração do MS. Não é uma crítica, é uma constatação, viveram em tempos onde estudar, não era uma escolha, era um previlégio. Por isso empurram-nos para as universidades, convencendo-nos que sem diploma não seríamos ninguém na vida. O Fernando Pessoa e o Saramago estariam condenados, pois eles nunca lá puseram os pés. Boas notas para mostrar aos pais, boas estatísticas para mostrar aos mercados, tanta exigência, e é apenas de imagem que continuamos a tratar. Uma casa com um jardim bonito, e a lixeira no quintal.
O MS tem razão na conclusão do artigo. Não é a democratização do acesso à informação que nos faz informados, é a curiosidade, e mais importante, o prazer em aprender por iniciativa própria. A verdadeira cultura está nessa busca, e não em conhecimentos aleatórios.
Fomos “desmemoriados” pelo google, a partir de certo ponto. Constato este fenómeno pessoalmente, e é algo que ultimamente tenho procurado contariar através da leitura, o último refúgio do conhecimento. Tudo o que precisamos de saber está ao alcance da ponta dos dedos, é essa a diferença, ainda se está a perceber o impacto desta nova realidade, confundem-se as coisas.
Não se entenda este desabafo como uma espécie de corporativismo, apesar de já não ser aluno, sinto-me mais motivado para aprender do que na altura em que frequentava a universidade.
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Midnight in Paris
3 11 2011
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Coisas da democracia
2 11 2011Democracia é isto. Os discursos oficiais apelam à participação cívica, soa tão bem durante as campanhas eleitorais e comemorações de datas que nos lembram de acontecimentos que nunca vivemos, mas não podemos esquecer. Num momento crítico, o primeiro-ministro grego convoca os cidadãos para referendar novas medidas que lhes vão custar a soberania e sabe-se lá mais o quê, “um sim ou não ao euro”, disse ele perante a estupefacção dos que emprestam o dinheiro. Os comentadores políticos, na generalidade, olham para aquele país com a mesma curiosidade mórbida que um transeunte olha para um acidente rodoviário. A máscara de pena no rosto, “ainda bem que não fui eu”.
A nossa democracia não é directa, é representativa. Elegemos pessoas de reconhecida competência para tomarem decisões fora do nosso alcance intelectual. Digo isto sem muita ironia, há decisões que não queria ver na mão de alguma pessoas, e lirismos à parte, o povo tem de ter a última palavra. Nenhum grego elegeu, directamente, Merkel ou Sarkoy ou qualquer um dos outros indecifráveis credores. Há um compromisso com a Europa? Não sei se será compromisso ou chantagem.
Eu sou apologista da União Europeia por principio, mas isto que nós temos não é união, pois num momento de aperto, cai a pantomina ideológica, deixando à vista a tirania ancestral, da qual nunca nos livramos como Humanidade, apenas se lhe procurou uma fundamentação.
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Melancholia
5 10 2011
A beleza deste filme, a música de Wagner que o acompanha, merece a tela das salas de cinema. A ficção científica é um quadro, onde se desenha um planeta em rota de colisão com a terra, como um fundo que vai consumindo o horizonte. Vejo o filme assim, apela à contemplação do cenário, sempre vasto, ocupado por um melodrama familiar, onde as pequenas coisas entre as pessoas agigantam-se de significado, num estranho ambiente.
A música, outra vez, é uma constante no filme, cujas resoluções nos deixam sempre em suspenso, a pairar. A Kirsten Dunst parece representar no palco de uma ópera trágica, chega a ser enervante, mas acaba-se por compreende-la, as coisas deixam de ter importância perante aquele céu.
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9 09 2011
Ela é música.
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Festivais à parte
23 08 2011O Festival de Paredes de Coura é de um campeonato diferente. Não iria a outro festival sem conhecer praticamente nada do cartaz, como vou a PDC. Costumo-me surpreender, mesmo dentro de um mundo musical com o qual não me identifico, Mogwai, por exemplo. O post-rock tem o defeito de não ter o virtuosismo do prog-rock. Digamos que será o prog a tentar sobreviver neste tempo algo estranho musicalmente. No entanto, adequa-se perfeitamente ao espírito do festival, basta julgar pela adesão do público, que não sabe “moshar”, é preciso dizer isto.
PDC é imbatível no cenário e no anfiteatro natural, que proporciona condições excepcionais para desfrutar os concertos sentado, caso haja a vontade ou necessidade de tal. É único, adorava ver um concerto das minhas bandas preferidas num sitio destes.
Comparo, por exemplo, com o Super Bock Super Rock, já fui duas vezes, a última há uns três anos, um grande cartaz, e um espaço ridículo. Um parque de estacionamento com um pequeno palco montado. Não brinquem comigo. Não merece tamanha promoção. É apenas um concerto, não um festival.
Em relação ás condições dos parques de campismo, oficiais e privados, bem, não é um hotel de 5 estrelas. A começar pelas casas-de-banho.
O vocalista dos Kings of Convenience (que fizeram uma excelente versão do “Corcovado” do Tom Jobim, com um português british), percebeu o ambiente do festival e juntou-se a nós. Na foto abaixo, a meio, é o tipo loiro de óculos. O Wally de calções azuis e brancos.
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Tags: Festival, Música, Mogwai, Paredes de Coura, Super Bock Super Rock
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Economy for dummies
23 08 2011Diz que os portugueses estão a consumir menos, daí resulta uma receita menor para o Estado, que a colhe através do IVA. Os governantes estão preocupados. Acham que não vão conseguir cumprir as metas da troika. É realmente incrível, como é que as pessoas com o aumentos do gás, combustíveis, electricidade, transportes, consequentes aumentos, alta taxa de desemprego, perspectiva de ganhar menos ou ser despedido, é incrível como não desatam a gastar a comprar carros e apartamentos. Os governantes estão admirados, esperavam outra coisa.
Os ricos franceses querem pagar uma contribuição excepcional, argumentando ajudar o país a ultrapassar a crise. Estou comovido. Filantropia é nobre. Isto são os capitalistas a lavar as mãos, através da exploração da simpatia que os pobres demonstram perante semelhantes actos de hipocrisia.
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Tags: Economia, IVA, Política, Troika
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